Ricardo Miranda Filho
A poesia é um estado de sentimento único, compreendido através da ação de vivê-la.
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O presente artigo tem por objetivo refletir em termos gerais sobre como o poema A rosa do povo poderia ser relacionado às formas teóricas de pensar o sentido da representação e da práxis, além de construir o trabalho a partir das "surpresas" semânticas do poema (melancolias e mercadorias que espreitam; muros surdos etc.) a fim de explicar como estas se apresentam segundo um e outro modo de ver o sentido na linguagem e defini-lo como metáfora ou não e, partindo de um resultado positivo, segundo que perspectiva teórica sobre a metáfora seria mais bem compreendidas e analisar regras do "fazer sentido" nos dois paradigmas teóricos principais. Além disso, pretende-se fazer uma breve análise dos aspectos poéticos a partir das posições relativista e universalista. Em torno dessa análise, pode-se discorrer sobre como as expressões de uma língua alcançam determinado significado e sobre a possibilidade de se pensar sobre a natureza deste significado a fim de tentar explicar qual o alcance dessa denotação. Isso tudo se refere à questão da imanência que assinala sobre a autonomia da língua. Opondo-se a transcendência da palavra como objeto de análise, essa imanência vai avaliar o signo linguístico de um termo, não com o intuito de se descobrir o sentido, no entanto para desvendar o que é o “manifestado da manifestação” que é “analisado em correlação paradigmática, enquanto sistema, excluindo, destarte, [...] toda a sintagmática, enquanto objeto”. Possuindo o mesmo nome, o poema faz parte de um livro escrito entre 1943 e 1945, época em que ocorria a Segunda Guerra Mundial. Por isso, percebe-se uma enorme tensão entre o governo – devido à criação de utopias de esquerda – e a visão amorosa e desencantada do autor o qual estabelece uma metáfora para a palavra rosa a qual se relaciona a um pensamento “do entendimento universal, dos valores da democracia e da liberdade, valores típicos da modernidade no século 20”, ou seja, a palavra rosa representa a expressão do povo daquela época o qual esperava o surgimento de uma realidade melhor – algo tão almejado pelo poeta -; enquanto que o termo do povo poderia estar relacionado a sociedade a qual está vivendo em que se está criando ideias socialistas e esquerdistas e, por isso, há no poema uma preocupação com os problemas vigentes. Exemplo desse assunto está no verso “O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera”, no qual Drummond discute sobre a sua angústia e seu sentimento de desprezo e incômodo ao mundo em que vivia, perpetrando a dicotomia esperança x pessimismo. Durante quase todo o poema, Drummond utiliza metáforas para explicar esse seu sentimento com o mundo por meio de críticas irônicas, transformando o tema da desigualdade social como matéria de sua poesia. Para exemplificar, nos versos “Estão menos livres mas levam jornais/E soletram o mundo, sabendo que o perdem”, o poeta demonstra a preocupação com um homem que não apresente nenhuma perspectiva de vida e não tenta reparar o resultado de um pensamento ligado apenas para o indivíduo em si. Destarte, é perceptível a análise do discurso teórico sobre a metáfora no poema A rosa e o povo, uma vez que se vê um olhar tradicional sobre a linguagem figurada a qual mostra a palavra sob um víeis do desvio linguístico, sendo algo opcional/ornamental e que salta aos olhos da linguagem. A parti daí, discute-se até que ponto a língua é estabelecida pela “natureza humana”, pois o valor linguístico mostra a propriedade representativa de uma ideia que constitui, assim, um elemento de definição de uma palavra o qual passa entre a imagem auditiva e o conceito, pois a linguagem causa certas surpresas, certos impactos. Para isso, utiliza-se da metáfora – linguagem desviante – que causa uma mudança da organização das palavras e dos seus significados. O verso “Em vão me tento explicar, os muros são surdos” exemplifica o caráter dessa “surpresa” linguística o qual mostra o silêncio para a situação sociopolítica, como também há no verso “Sob a pele das palavras há cifras e códigos” que define este novo mundo cheio de aspectos socialistas. Esse assunto está em torno da discussão sobre a universalidade do sentido e que nos permite saber até onde uma palavra alcança determinado significado, pois esta parte, segundo Saussure, do ponto da experiência com a natureza, ou seja, com o meio social e, assim, discute-se sobre a natureza do signo linguístico a partir da qual se “supõe ideias completamente feitas, preexistentes às palavras [...]; ela não nos diz se a palavra é de natureza vocal ou psíquica”. Além disso, a posição relativista incide na implicatura de um imobilismo a qual constrói a posição de condicionamento pela língua – em um feitio simplista -, pois esta possui uma essência por não adquiri, de acordo com o pensamento relativista, um conjunto de conceitos os quais, segundo G. Deleuze, “impedem que o pensamento seja confundido com ‘uma simples opinião’”. Fala-se sobre como os gestos extralinguísticos interagem durante o processo comunicativo entras as pessoas ou na forma escrita. Neste caso, Drummond utiliza as palavras de acordo com a natureza psíquica e social e, por meio dela, vai constituindo um grande arcabouço metafórico. No terceiro verso, ele fala: “Melancolias, mercadorias espreitam-me”. Através de uma crítica a tendência capitalista, pôs-se a dizer que o mundo se encontrava de um modo sufocante em que todos e tudo eram tratados como se fossem mercadorias ou qualquer coisa relativa ao consumo. Logo, Drummond utiliza uma linguagem alinhada ao paradigma da práxis e este funda uma linguagem como berço da diferença entre o literal e o figurativo, através do qual não há um sistema objetivo de representação, ou seja, não existe uma expressão de conhecimento verdadeiro, pois não ocorre uma uniformidade entre o sentido das palavras. Nas relações de sentido entre as palavras, a tradição da linguagem debate sobre a consistência da imanência para se saber até que ponto o significado de uma expressão pertenceria a ela, já que, a partir de uma informação contextual, estabelece-se o que pertence a uma palavra e o que está no seu mundo externo, características das dimensões dos significados das expressões contidas nos conhecimentos linguístico – o qual é imanente aos fatos da língua, é compartilhado por todos dentro de uma homogeneidade e hierarquia sintática e lexical, tornando-se sucinto, manipulável e compulsório – e enciclopédico – que é extralinguístico (ligado aos fatos do mundo), sendo distribuído de forma desigual, heterogênea e desordenada, e, por isso, torna-se vasto, de difícil manipulação e opcional pelos usuários da língua. E, no mundo da figuratividade, a metáfora seria um recurso de estilo livre e decodificado que incide sob uma linguagem por existir uma contraparte sobre tudo o que quer dizer, ou seja, é algo extralinguístico cuja interpretação se torna periférica por depender da cultura sob a qual se define o significado de determinada expressão, visto que em uma frase pode haver palavras cujos significados sejam conhecidos, mas a frase pode significar algo diferente. Logo, o sentido de uma frase é a combinação de suas palavras ou partes e, por isso, encontram-se dificuldades para separar o centro da margem. Em A rosa e o povo, há duas noções sobre a feitura da expressão que é ligada às tradições do paradigma da representação: uma que diz respeito ao que é físico-científico – frases declarativas e literais, dando conta das palavras e do seu uso central -, e outra que fala sobre o que é retórico-poético, ou seja, o “resto” – as frases não-declarativas, não-literais, que são a margem da linguagem, dos significados não-literais da palavra, e, neste caso, a metáfora seria o desvio de determinada ordem. O poeta consegue fazer uma analogia entre essas duas definições para articular sobre todo o contexto histórico e político durante a década de 40, no entanto relaciona-o com o seu sentimento frustrante e de angústia, como em “O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera”. Nessa passagem, Drummond almeja a construção de uma sociedade mais justa e que não seja ligada às coisas mesquinhas resultantes de um mundo capitalista. Ao final do poema, Drummond afirma: “É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. Nesse trecho, o poeta faz uma metáfora falando que o próprio povo passou dos limites da desigualdade, aumentado a distância entre os ricos e os pobres. Assim, realiza-se um abismo entre o nome “rosa” e a coisa “povo” e, devido à informação contextual do poema, uma crítica à distinção de um tempo coletivo que se extinguira por causa da falta de responsabilidade moral resultante de um pensamento político e, por meio deste, somente poucos conseguiam benefícios econômicos.
Ricardo Miranda Filho
Enviado por Ricardo Miranda Filho em 23/09/2015
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