Ricardo Miranda Filho
A poesia é um estado de sentimento único, compreendido através da ação de vivê-la.
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A história como cenário da arquitetura romanesca da literatura maranhens
NERES, José. A história como cenário da arquitetura romanesca da literatura maranhense. In: ______. Na trilha das palavras: estudos literários. São Luís: Café & Lápis, Edições AML, 2015.
 

A literatura maranhense é pródiga de escritores excepcionais que souberam usar seu talento para descrever e criar cenários em seus romances de modo que houvesse alguma importância tanto a literatura quanto para a história. O que se pode perceber é a forma como se tenta distinguir os valores literários e os historiográficos, visto ser possível assimilar essas duas formas juntas, conexas. Por ser verossímil, é visível que uma história não pode ser tratada de modo ficcional devido a ser confundida com outro termo – estória -, que trata de elementos, figuras, personagens e cenários não reais. Ao contrário do que acontece com a história, os escritores podem usar do seu poder ficcional para analisar fatos em suas obras de modo a se deixar influenciar por essa realidade: há acontecimentos de fato – sejam verdadeiros ou não, como as lendas do folclore – que servem de inspiração para a ficção.
A literatura, por meio de suas diversas formas, mostra como a especificidade e articulação das ideias ocorrem ao lado de uma linguagem social a qual se modifica sob o ponto de vista de cada contexto e de cada escritor. Então, os textos literários sofrem essa autonomização devido a existência da fronteira entre o que é social e o que é individual, ou seja, dentro de uma dimensão histórica-sociológica que está próxima de uma ideologia individual, fato que permite o debate tanto sobre uma dimensão autônoma e intelectual do autor como de um processo social na escrita literária.
É deste modo que José Neres, em seu artigo A história como cenário da arquitetura romanesca da literatura maranhense, vai discutir os limites entre história e literatura, que podem aparecer como fontes de estudo para o conhecimento humano a fim de entender como essas duas áreas de estudo podem se contribuir.
Através de uma bibliografia excelente e de uma percepção crítica aguçada, Neres começa seu artigo atribuindo à literatura e à história suas definições acerca de como as duas disciplinas conseguem ver o mesmo tema da realidade. O autor cita Sandra J. Pesavento que:

[...] a ficção não é necessariamente o avesso do real, podendo ser uma alternativa para a capacitação dos fatos históricos, ultrapassando os limites impostos aos historiadores.

Com essa análise, nota-se que as diferenças entre literatura e história estão ligadas à parte metodológica, ou seja, a aplicabilidade de cada um os mantém distantes uma da outra, no entanto há, de certo modo, um entendimento comum por tratarem de fenômenos sociais similares. Um bom exemplo disto é o primeiro texto escrito em terras brasileiras, cujo território ainda não era visto assim na época: a carta de Pero Vaz de Caminha discorria sobre as diferenças entre o novo mundo (colônia) e o velho mundo (metrópole), a fim de caracterizar esse novo espaço como sendo diferente de tudo que já se tinha visto. Percebe-se aí que este texto foi escrito com a finalidade historiográfica e não ficcional, no entanto pode-se dizer que seu entendimento sociológico pode estar dentro de uma obra ficcional que apresentará uma outra escrita e finalidade.
A estrutura do artigo compreende a análise de alguns livros para se compreender que a literatura pode trabalhar lado a lado com a história, no entanto não houve uma análise exaustiva de cada uma dessas obras, somente a intenção de corroborar esse entendimento. Cada obra analisada demonstra o quanto a história e a literatura trabalham de modo se similar sem deixar de lado a distinção de História Literária e História da Literatura: procura-se chegar a uma definição do que seria a literatura dentro de termos que chegariam a coagir com os valores sociais, críticos e simplistas para questionar o surgimento deste feitio de estudo com a finalidade de mover a história a um aglomerado de fatores persuasivos a construção literária, desde a sua concepção até o ápice.
Não me adentrarei a uma análise minuciosa, no entanto usarei algumas obras descritas no artigo para analisá-lo de forma mais crítica possível. Os autores Bernardo Almeida e Clodoaldo Freitas escreveram obras baseadas em uma revolta nativista que ocorreu no Maranhão no final do século XVII: a Revolta do Bequimão chefiada por Manoel Beckman, português que adotou o Brasil como sua segunda nacionalidade e ainda foi vereador da Câmara de São Luís. Os romances dois autores tiveram o mesmo nome – O Bequimão –, e o seguinte trecho demonstra como a história pode ser romanceada sem problemas:
 
Por mais que se esforçasse, não conseguiria afastar da lembrança as cenas do pesadelo que tivera: a luta com os soldados para libertar Manoel da forca, o rosto dele a crescer de encontro ao sol, as gargalhadas de Lázaro indiferente a seus apelos [...]

Bernardo Almeida romanceia um fato histórico ocorrido em São Luís há mais de dois séculos, fato que demonstra a ligação forte entre história e literatura. Podemos afirmar que, segundo Aristóteles, a literatura é uma imitação do real, é algo que ocorre na história (ou estória), mas que pode ser descrita ou reescrita de modo literário, embora haja uma recriação diferente – isto seria uma análise pessoal do escritor.
Aristóteles, com sua teoria da mímese, é o primeiro a mostrar que a literatura é forma (os meios e os modos da imitação) e conteúdo (os objetos da imitação). É o primeiro a mostrar que a literatura é autônoma em relação ao real, ao mesmo tempo que se submete a esse mesmo real (os objetos da imitação poética são sempre homens em ação, para nos possibilitar um conhecimento advindo principalmente do reconhecimento das situações tratadas na obra).
Para exemplificar melhor o que Aristóteles afirma, o excelentíssimo escritor Josué Montelo utiliza vários personagens históricos da cultura maranhense em seu romance Os Tambores de São Luís que descreve ao menos 400 dessas personagens ludovicence, como Celso Magalhães, Ana Jansen, Pontes Visgueiro e Gonçalves Dias. Nesse Romance de Montelo, ocorre uma junção entre ficção e história desta forma para dar maior verossimilhança ao romance do escritor que possui um enorme conhecimento devido a inúmeras pesquisas sobre a área.
O artigo analisado permite que consigamos um olhar mais crítico acerca das fronteiras entre História e Literatura, que podem chegar a um ponto em comum mesmo seguindo caminhos distintos. As versões criadas pelos romancistas servem para serem criados personagens, cenários, ações e situações que, muitas vezes, a história não consegue preencher algumas lacunas vazias, e isso ajuda a entender certos momentos históricos.
Ricardo Miranda Filho
Enviado por Ricardo Miranda Filho em 26/10/2016
Alterado em 26/10/2016
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