Ricardo Miranda Filho
A poesia é um estado de sentimento único, compreendido através da ação de vivê-la.
CapaCapa
Meu DiárioMeu Diário
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
FotosFotos
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
PrêmiosPrêmios
Livro de VisitasLivro de Visitas
ContatoContato
LinksLinks
Textos

A relação social entre memória e literatura


A relação literatura e sociedade se atrela a diversos setores e conceitos ligados a obra e seu condicionamento social como pontos crucias de interseção entre si. Uma obra pode ter vários significados que variam de acordo o vínculo estabelecido entre a obra e o termo correlacionado. Logo, pode-se perceber que a produção literária está obstinada a passar por diversas análises e interpretações para demonstrar seu o seu valor e significado.
Há vários modos de analisar uma obra literária, e o tratamento dado a ela demonstra que objeto de estudo pretende-se analisar para se chegar a seu significado. Os fatores externos (como ambiente, costumes, traços grupais, ideias) possibilitam conduzir o valor criador da obra (segundo Georg Lukács, é a estética) ou se ajuda na possibilidade de criação da obra como tal (Segundo Lukács, se é elemento determinante da estética).
Embora se tente fazer uma analisar uma literatura, deve-se ater aos conceitos sociais ou às impressões acerca do que se tem em relação às coisas. O que se pretende discutir é a relação entre as ideias em comum que um determinado grupo possui. Segundo Maurice Halbwachs, existem dois tipos de memória: a individual – que liga às experiências próprias e não pode depender das relações com o outro – e a coletiva – que é similar a todos em determinado momento por ter uma natureza de ser social. Em seu livro A memória coletiva, Maurice Halbwachs afirma que:
 
Apesar de tudo, nada prova que todas as noções e imagens tomadas dos melos sociais de que fazemos parte, e que interveem na memória, não cubram, como uma tela de cinema, uma lembrança individual, mesmo no caso em que não a percebemos (HALBWACHS, 2008)

É visível que a lembrança individual é sensível e intuitiva em relação à consciência que se tem das coisas. Portanto, a natureza do ser social se desenvolver ao longo do tempo e durante a infância, época em que se começa a surgir o reconhecimento dos fatos exteriores, e, a partir daí, a memória individual se forma com limites de interferência coletiva.
O elemento social é utilizado como meio de interferir os aspectos da obra, ao lado de outros – como o religioso, psicológico, linguístico, entre outros. O fator externo sempre servirá como algum tipo de inferência para a crítica literária por mais que se utilize uma modalidade de estudo diferente. Em sua obra Literatura e Sociedade, Antônio Cândido afirma que há vários tipos de crítica do tipo sociológico em literatura: o primeiro relaciona o conjunto de uma literatura, um período e um gênero com as condições sociais, embora haja dificuldade em analisar as condições sociais e a obra devido à análise ser de modo isolado ao não relacionar nada com o condicionamento social; o segundo tipo se forma por estudos que verificam como as obras se espelham ou representam a sociedade; o terceiro tipo seria apenas sociologia num estudo sobre a relação entre obra e público (questão de aceitação); o quarto tipo estuda a posição e a função social do escritor com o objetivo de sua posição com a natureza de sua obra e ambas com a organização da sociedade; o quinto tipo investiga a função política da obra e dos autores com objetivo ideológico; e o sexto tipo é voltado para a investigação hipotética das origens, ou seja, a literatura em geral.
Assim, pode-se perceber que há uma relação entre a obra e os elementos sociais, cuja importância é tão visível quando se vê a forma da estrutura da obra quanto os elementos psíquicos na análise literária. Georg Lukács afirma que a visão coerente sobre a sociedade é bem vista num romance histórico, por exemplo, principalmente quando se destaca elementos políticos. Em suba obra A teoria do romance, Lukács destaca como o escritor se firma na construção de um verso em busca da liberdade e da força poética, e, às vezes, neste tipo de caso, há a diferença entre o conteúdo e a forma, a qual, às vezes, é rígida para a entrada do conteúdo. Lukács cita a epopeia nos casos de construção do herói e do vilão, principalmente no que diz respeito ao herói por não ser representado por um indivíduo, mas pela comunidade – o coletivo.
Verifica-se, assim, como o condicionamento social é muito presenta na produção literária, sempre influenciando as estruturas ou conteúdo de uma obra. Segundo Halbwachs, as lembranças se organizam de forma individual e coletiva, cada uma com suas características e estrutura, mas há a possibilidade de interação entre as duas para que os fatos externos possam ser estruturados na memória individual. Assim, segundo Halbwachs podem haver a memória autobiográfica (interna, interior ou pessoal) e a histórica (exterior ou social): e pode-se ver que a individual se baseia na histórica para conseguir formar e distinguir as noções que se constituem ao longo do tempo – é um modo de interpretação dos fatos externos, da comunidade.
Enquanto a memória individual é pertencente a capacidade interna do indivíduo em assimilar as noções das coisas, a memória histórica vai além e estabelece fatos acerca dos acontecimentos no interior do indivíduo. No entanto isto é feito por meio de datas e acontecimentos históricos e nacionais totalmente exteriores. O que é analisado neste sentido é a interação que os elementos sociais fazem na memória do indivíduo e, com isso, define-se os traços de escritos literários e artísticos.
São estabelecidos, neste sentido, como as lembranças muito antigas são estabelecidas, pois alguns fatos da história foram passados através de gerações. Essa relação entre passo e memória é estabelecida, muitas vezes, através da escrita, caso contrário haveria apenas um quadro artificial na memória individual – como na infância – ou na coletiva – como fatos históricos. Lukács cita como exemplo a obra Odisseia, de Homero, que escreveu versos em uma epopeia sobre tradições mitológicas e históricas que ocorreram há muito tempo; logo, seria muito difícil de se compreender a sua época sem este tipo de produção literária, que, às vezes, era muito feita na oralidade.
Em sua obra Representações de etnicidade, a literatura pode ser chamada de mestiça por incorporar elementos da oralidade a fim de desterritorializar a língua e misturar os gêneros. Pode-se verificar isto na época pré-colonial quando havia misturas de línguas étnicas e/ou crioulas, fato que ocasionava a transgressão da sintaxe da língua local. A partir daí, surgem literaturas transnacionais no sentido de haver obrar literária em que se supera o “nacional” por uma visão do outro – o “transnacional” – devido à existência de várias comunidades linguísticas – ou mesmo escritores em uma comunidade híbrida, seja por questões étnicas de raça ou religião. Segundo Antoine Berman, é uma questão sobre um conceito ligado às relações entre diversas literaturas: a literatura-mundo e a literatura pós-colonial: seria uma forma de explicar a literatura como expressão de nacionalidade, que, neste caso, se modifica coletivamente devido a estes fatores históricos de hibridização de etnias, o que faz ocorrer modificações na língua e linguagem de um povo.
Outro caso parecido com este é o caso do exílio como aspecto importante para a literatura. O autor começa a escrever, reescrever e descrever fatos em uma obra a partir de um discurso sobre a visão que tem sobre este tipo de migração forçada. Logo, pode-se dizer que sua visão sobre seu país começa a ser descrita de forma mais crítica (e severa, em alguns casos), já que, segundo Agambem faz-se “uma associação do morador da banleue – espaço fora da cidade reservado aos banidos – como o homo sacer, aquele cuja vida nua é ‘matável e insacrificável’” (FIGUEIREDO, 2010). A visão individual do autor se modifica devido ao contato com este tipo de visão coletiva/histórica ocorrida num novo processo de identificação em ocorre contato com novas, ideias, pessoas e identidades.
É perceptível que, segundo Maurice Halbwachs, entre a memória e a nação há muitos grupos, e cada um possui sua memória coletiva. Logo, pode-se falar que a memória histórica é uma sequência de acontecimentos dos quais a história nacional conserva sua lembrança devido a um conjunto de fatores externos (ou sociais) que ajudam apenas a formar a memória coletiva, mas não é um fator primordial.
A literatura depende dos fatores sociais para se constituir e se caracterizar, pois o social ajuda a focalizar a estrutura da obra e as ideias dentro da obra literária que, assim, determina o seu teor, a validade e o interesse dos seus leitores. Percebe-se, deste modo, que a memória contribui de maneira eficaz para a produção literária, principalmente pelo fator histórico que contribui para o desenvolvimento de noção e conceito para o indivíduo, apesar de a coletividade e a historicidade não se apoiarem na individualidade devido a apresenta um conjunto estrutural e hierárquico num grupo. O autor em si é intermediário entre a obra que criou e o público; logo, é o agente que desencadeia o processo de escrita, definindo uma série interativa: obra-autor-público.
 
Ricardo Miranda Filho
Enviado por Ricardo Miranda Filho em 22/11/2016
Alterado em 23/11/2016
Copyright © 2016. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras