Ricardo Miranda Filho
A poesia é um estado de sentimento único, compreendido através da ação de vivê-la.
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Tentar confrontar diversas análises sobre a formação literária e sua autenticidade é um questionamento que deve ser fortemente averiguado e debatido. Pode-se asseverar que a literatura se remete a diversos pontos de vista que devem ser levados em conta. Assim, pergunta-se: o que é a literatura? Que pontos devem debatidos para se definir o que é e não é literário? É necessário perceber os condicionamentos da obra com o objetivo de se argumentar, debater e defender cada resposta.
Assevera-se que a literatura está intrinsecamente ligada a uma condição social e individual que influencia direta e indiretamente a elaboração de uma obra literária, no entanto este pensamento deve ser visto de acordo com cada sociedade e cada época. Deste modo, nota-se que o contexto sócio-histórico é de fundamental importância para a análise da literariedade da obra, ou seja, perceber como o ambiente externo – em dado momento da história -influencia o intelecto e a produção de um escritor e vice-versa, uma vez que, como afirma o crítico Antônio Cândido em sua obra Literatura e sociedade, há uma força do meio social que interfere na produção da obra que também irá exercer alguma interferência no público por meio de sua divulgação.
Cândido ainda corrobora a hipótese de que a obra, em seu processo de comunicação, está ligada a um comunicante, a um comunicado (a obra em si), a um comunicando (que é o público) e a um efeito, que será surtido neste último. É importante destacar quais critérios devem ser levados em conta para se confrontar ou ratificar a obra e sua condição social, uma vez que há diversas formas de crítica de tipo sociológico para se compreender a literatura: o primeiro vai destacar um conjunto de obras de literatura, o período e um gênero sob os aspectos sociais em que se misturam; o segundo tipo destaca apenas como a obra representa a sociedade; o terceiro tipo discute a relação entre a obra e o público, ou seja, se há aceitação ou não; o quarto tipo debate a função social do escritor com o intuito de entender sua posição na sociedade; o quinto tipo desta a posição política do escritor; e o sexto e último tipo investiga quais as origens da produção literária e seus gêneros.
Deste modo, deve-se compreender como cada sociedade age para que haja literatura, principalmente devido a seus costumes e sua cultura próprios, pois estes apresentam uma relação de mutualidade através da qual um tem influência na formação do outro. Pode-se argumentar, nesse sentido, que as condições sociais de uma época têm importância na constituição de um conjunto de obras literárias a partir do momento que discute uma referência entre a obra e seu autor, sua realidade, seu leitor e sua linguagem. Em sua obra O Demônio da teoria, Antoine Compagnon descreve um esboço acerca da teoria e da prática literária, principalmente para argumentar sobre as formas da literatura e de críticas literárias. A partir desse momento, Compagnon discute como destacar a relação da literatura de acordo com a crítica, uma vez que se percebem diversas análises sobre uma determinada obra e uma determinada época. Por meio desta conjectura, faz-se uma diferença entre a teoria da literatura e as teorias literárias: a primeira perpetra uma síntese acerca de todo um conjunto de obras de literatura; enquanto a segunda faz uma análise mais subjetiva de acordo com o olhar de cada crítico que debate o texto em si, o que ajuda a entender como a história literária discute o contexto.
Assim, destaca-se a importância de se discutir as diferentes formas de se perceber uma obra literária, principalmente devido à existência de fatos que apregoam uma abordagem sobre a extensão e função da literatura. Compagnon fala sobre a extensão da literatura, ou seja, em que tipo de obras a literatura se encontra. Segundo o autor, a literatura está presente, em um sentido amplo, em tudo que foi impresso, ou seja, qualquer tipo de texto impresso em obra presente, por exemplo, em uma biblioteca ou não. Sendo assim, vale analisar a abordagem feita por Aristóteles em sua obra Poética: por meio da mimese, seria literário tudo que pudesse imitar a sociedade, e a arte da imitação foi destacada em gêneros literários, como o épico e o dramático, tendo-se excetuado o lírico por não trazer uma imitação da sociedade, uma vez que traz a subjetividade no texto. No entanto, desde esta explicação aristotélica, a ideia de literatura foi sendo conceituada de outras formas de acordo com a época, pois é necessário destacar a forma do conteúdo (a formação dos significados) e a forma da expressão (a representação imagética deste conteúdo). Deste modo, destacam-se as propriedades fundamentais para haver ficcionalidade na obra, podendo destacar, por exemplo, o gênero dramático fora de outros gêneros literários, como o romance.
Em sua obra Magia e técnica, arte e política, Walter Benjamin discute sobre a representatividade técnica da obra literária, cuja aura literária tem se perdido em virtude de sua multiplicidade em outras áreas, como o cinema, a fotografia. Benjamim ratifica ainda que há uma enorme tendência em argumentar qual seria o real valor do culto e da exposição, afirmando que cada polo, devido às suas diferenças, apresenta valor próprio, embora haja um destaque maior nas funções de representatividade social em cada obra. A partir daí, pode-se discutir qual seria, de fato, a função social da obra e como esta poderia representar melhor as condições sociais de uma determinada sociedade, de uma cultura e de uma dada época.
Tendo em vista a representatividade técnica, é certo afirmar que a condição social influencia o valor da obra, tendo em vista os questionamentos sociais implícitos dentro de cada escrita. A função do autor está atrelada a diversos discussões que resultados de uma reflexão acerca do pensamento da especificidade de cada grupo, cujo pensamento se diferencia em virtude das diferenças individuais, coletivas, sociais e temporais. Portanto, é necessário que se tenha em mente um debate a respeito da construção mnemônica para a construção e desenvolvimento da literatura. Em sua obra A memória, a história, o esquecimento, Paul Ricour discute sobre o conceito de reminiscência, cujo destaque teve origem com Platão, que discute acerca formação do tema epistemológico (conhecimento) e político (poder) para a elaboração da teoria das ideias em que há o mundo sensível (dos fenômenos) e o mundo inteligível (das ideias), o que nos remete a ideia de multiplicidade das coisas (os sentidos) – lembrando a ideia de Heráclito – e a imobilidade das ideias – lembrando os questionamentos de Parmênides. Deste modo, Platão constrói a teoria das ideias formando a palavra eidos, ou seja, a influência dos sentidos e das ideias faz formar conjunto de interpretações e conhecimentos, fato que contribui com a formação da teoria da reminiscência, cujo objetivo principal é debater sobre a validade das recordações que ajudam a assimilar o conhecimento por meio das lembranças.
Assim, é possível asseverar que a formação da memória tem grande alcance na formação de uma obra literária, principalmente em virtude contribuir com a formação de identidade do autor. Os questionamentos acerca da lembrança estão ligados às experiências próprias do autor, fato que colaboram com a qualidade e as propriedades de uma obra. Em sua obra Memória Coletiva, Maurice Halbwachs destaca a existência de duas memórias: uma individual e uma coletiva. Há, deste modo, um conjunto de memórias individuais que formam uma memória coletiva, ou seja, um conglomerado de membros, cada um com sua especificidade e qualidade, formam uma coletividade de pessoas que detêm um pensamento e um ideal em comum. Assim, um conjunto de lembranças de uma pessoa começa a se formar com a interação com o exterior, pois este contribui com a formação de noções individuais.
É por isso que a memória tem influência na elaboração de uma obra literária, independente de seu gênero, pois é fato que a sociedade exercer poder sobre os questionamentos que começam a se formar no intelecto do autor. Percebe-se, portanto, que a questão acerca da relação literatura e sociedade, como apregoou Cândido, deve ser discutida para compreendermos melhor como a interação entre autor e sociedade tem importância a formação da literariedade, fato que auxilia a responder o que, de fato, é literatura.
Em sua obra Tempo passado, Beatriz Sarlo discute sobre como as narrações de experiência colaboram com a formação do sujeito enquanto indivíduo e ser pensante, além de defender a ideia da subjetividade tendo em vista o conjunto de ideologias presente em determinado época e sociedade. Portanto, Beatriz Sarlo discorre sobre a expressão “visões do passado” de um lugar, mas tendo em vista os questionamentos do presente devido à temporalidade influenciar nos comportamentos coletivos e individuais do presente. Deste modo, é perceptível que os pontos acerca das recordações e das memórias ajudam a entender um tipo de sociedade ou um tipo de condição humana, pois a cada momento há articulações de fatores externos que modificam ou desenvolvem o domínio de um pensamento, embora haja a possibilidade de defendê-lo ou atacá-lo.
É deste modo que Alfredo Bosi, em sua obra Entre a literatura e a história, assevera que a influência social e histórica está cada vez mais presente nas obras literárias. Bosi afirma que a literatura ocorre por meio de um conjunto de ideias que são passadas ao papel em suas diferentes formas de acordo as qualidades e a literariedade do autor, por meio de um conjunto de memórias que foram adquiridas pela vivência e pelas relações externas na sociedade. Deste modo, é perceptível como o pensamento e a linguagem de uma comunidade assimilam o significado do cotidiano, fato que está presente em cada obra elaborada. Alfredo Bosi questiona: “a poesia ainda é necessária?”. Admite-se que sim em virtude de sua elaboração imediata, como modo de se compreender mais rapidamente as propriedades da literatura, principalmente por sua multiplicidade: a poesia está presente nos demais gêneros – teatro, ficção, cinema, etc. O que se pode questionar aqui é a forma técnica pela qual a poesia contribui para a formação de uma literatura, pois, mesmo tendo um tom mais subjetivo, percebe-se com clareza na poética a formação exterior como experiência tida pelo autor em diversos assuntos: políticos, sociais, subjetivos em si mesmos.
Percebe-se, portanto, como a tríade autor-obra-pública discutida por Cândido é compreensível. A literatura se forma por meio de uma relação entre o que o autor tem a falar, o que auxilia na formação da obra e a receptividade do público. Neste momento, há a necessidade de um equilíbrio para se definir a qualidade e a validade da literatura de uma obra, pois, segundo, Roman Jakobson, a linguagem apresenta diversas funções (emotiva, poética, conativa, fática e referencial), e a interação perfeita entre cada uma contribui para a formação de uma literatura, que apresentará a memória e a identidade de uma sociedade de uma determinada época.
Ricardo Miranda Filho
Enviado por Ricardo Miranda Filho em 08/11/2017
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