Ricardo Miranda Filho
A poesia é um estado de sentimento único, compreendido através da ação de vivê-la.
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Doze Noturnos da Holanda

Homem, objeto, fato, sonho
tudo é o mesmo, em substância de areia,
tudo são paredes de areia, como neste solo inventado:
mar vencido, fauna extenuada, flora dispersa,
tudo se corresponde:
zune o caramujo na onda com o mesmo som do lábio de amor
e da voz da agonia.
Os braços, as nuvens, o outono pelo parque
têm o mesmo gesto, grave, precário, fluido.

Ah, e os louros cabelos cariosos, e a luminosa pálpebra,
E a minha deslumbrada vigília
E a memória do universo
Tudo está ali, mas a luz confusa que envolve a lua,
Mais o clarão do pólo e as híbridas águas,
E tudo se desfolha sobre os lugares invisíveis
Num outro reino que apenas a noite alcança.
 
As influências que Cecília Meireles recebeu foram muitas durante sua produção literária modernista, tendo em vista sua extensa produção literária desta poetisa que foi importante para a sua época. Começou a atuar na literatura ainda muito nova, com apenas 18 anos de idade quando lançou o livro Espectros, tendo ainda participado de um grupo literário coordenado pela Revista Festa, que levou Cecília a ter um cunho muito espiritualista em muito de suas obras.
Apesar de Cecília Meireles começado sua carreira como poetisa lançando o livro Espectros, em 1919, ela só é reconhecida oficialmente em 1939 quando publica o livro Viagens, com um caráter neossimbolista e aspectos influenciados por poetas como Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Sousa. Sempre procurou tematizar certa espiritualidade com objetivo de realizar uma “comunicação entre a matéria e a alma, o espírito, independente de uma crença específica”, como dizia Celso Leopoldo Pagnan.
Além disso, ela sempre tentou buscar temas que tratassem a efemeridade da vida e a sua transcendental finalidade. Sucessivamente falava sobre as transformações que as pessoas sofriam, tanto físicas como morais. Assim, escreveu no poema Retrato: “Eu não tinha este rosto de hoje [...]”. Esse tipo de poema, geralmente, é composto por uma musicalidade intensa – que ganhou do simbolismo -, sempre presente a uma melancolia resultante de sua visão em torno da vida. Cecília também falou sobre outros assuntos como os de caráter sociopolítico. Exemplo de um poema desse feitio é O Romanceio da Inconfidência (1953), que trata de um fato importante para a história brasileira: a Inconfidência Mineira (1789). Além disso, é notória outra característica em parte de sua obra: o regionalismo, principalmente presente em sua prosa. O principal objetivo desse tema – ocorrido na obra de outros escritores, com A bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, - era criticar falta de auxilio a aqueles que viviam no sertão, tema presente em O Quinze, que mostrava “o drama da seca e da difícil manutenção das fazendas, devido à árdua resistência do gado no sertão”.
Enquanto a estética dos seus escritos, em seus poemas Cecília Meireles escreve em versos breves e livres, graças às características do Modernismo o qual permitiu uma liberdade poética com poucas rimas, mas como uma musicalidade sempre presente. Sempre utilizou um vocabulário muito rico, ao contrário da maioria dos escritores modernistas que utilizavam o coloquialismo. Segundo Mariana Martins, através do seu léxico vasto (de tradição portuguesa), ela consegue descrever as “impressões sensoriais em seus poemas: imagens visuais e auditivas sucedem-se a todo o momento”. Desta forma, parte da repetição de uma palavra para dar ênfase no poema, quase chegando a um sentido metafórico.
Um bom exemplo poético de Cecília é o poema Dozes Noturnos de Holanda está presente no livro Viagem, premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1937. A forma do poema mostra basicamente como Cecília tinha o hábito de escrever com versos livres – apenas alguns são metrificados no livro - o que pode valorizar as assonâncias utilizadas, dando enfoque ao efêmero.
Percebe-se ainda a mistura de elementos que, apesar de serem constituição diferentes, facilitam a formação do poema como um todo, por exemplo, o primeiro verso descreve o homem de origem animada o qual se junta aos objetos de origem inanimada; e o fato que liga a sua concretude a abstração dos sonhos; dessa forma, Cecília continua afirmando que “tudo se corresponde”, no caso, a uma mistura amor e agonia.
Mesmo em verso livre e ter um ecletismo bem clarividente, Cecília soube escrever de formar que entoasse o seu desejo de fuga e sonho e, por isso, tivesse uma tonalidade pessimista: “Os braços, as nuvens, o outono pelo parque/têm o mesmo gesto, grave, precário, fluido”. Por isso, ocorre no poema uma crise de solidão em que o vazio é preenchido pela melancolia, saudade e sofrimento que devem sair para melhor aproveitamento da vida, já que Cecília acredita na sua brevidade.
No verso “tudo está ali, mais a luz confusa que envolve a lua” mostra como o eu-lírico não consegue atingir outro estado de ânimo e largar a dor existencial que seria deixada de lado pela sensação de se proporcionar um estado de conforto e aconchego que poderá ter com a passagem do tempo, pois tem-se a noção de que tudo é breve, passageiro, como em “e tudo se desfolha sobre lugares invisíveis” que, dificilmente, se esvaem devido “as raízes pertinazes” que possui, ou seja, tem dificuldade, às vezes, de conseguir mudar seu estado de espírito.
É perceptível que Cecília Meireles foi – e ainda é – uma das figuras mais importantes para literatura brasileira e, principalmente, na produção literária feminina, o que dificilmente acontecia há alguns anos no Brasil devido à dificuldade de inserção ao mercado artístico por parte das escritoras.
Ricardo Miranda Filho
Enviado por Ricardo Miranda Filho em 29/01/2018
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