Ricardo Miranda Filho
A poesia é um estado de sentimento único, compreendido através da ação de vivê-la.
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Literatura e subjetividade

A disposição da literatura tem se mostrado diversa ao longo de seus anos de existência, a pensar desde a época das primeiras discussões sobre o tema na Grécia Antiga. A importância de se colaborar neste assunto diz respeito às arguições sobre seus muitos desdobramentos que pode apresentar, e os primeiros estudos litcerários apontam para o que seria a literatura em si, como se compreender quais textos seriam literários, como se fosse feita uma “gramática da literatura”, algo prescritivo que definisse a literatura.

Fazer uma análise de um conjunto de obras literárias remete à necessidade de um estudo profundo acerca de nossos costumes e hábitos, haja vista existem diversos tipos de interação entre os indivíduos, o que resultaria em um determinado tipo de comportamento, diferenciando-se de acordo com a sociedade e época. Tudo isso ocorre devido às culturas distintas existentes no mundo, e isto demonstra os variados padrões e hábitos que colaboram com o desenvolvimento comportamental de cada indivíduo. Portanto é necessário afirmar que qualquer sociedade, ao demonstrar interação, vai formando suas características vistas ao longo dos anos, fato que se manifesta nas interferências individuais e sua atuação dentro de um coletivo. A priori, faz-se necessário discutir a respeito do conteúdo da memória o qual, por demonstrar importância na construção do intelecto de um ser humano em um sentido amplo, contribui com a análise acerca dos comportamentos individual e coletivo, pois cada grupo apresenta para si seus pensamentos, conceitos e imagens de cada membro como um conjunto, e cada membro se apresenta com suas características.

A prática literária se modificou ao longo dos anos em virtude dos mais variados tipos de ideologias presentes no desenvolvimento de cada sociedade. Em virtude, realizar uma reflexão literária se entrelaça com argumentações sobre os elementos agem como norte para o comportamento e posicionamento de um escritor. A respeito disso, Silviano Santiago, em seu ensaio “Literatura Anfíbia” presente no livro “O Cosmopolitismo do pobre”, discorre sobre esse tipo de assunto ao afirmar sobre a existência de uma literatura híbrida (ou anfíbia, conforme o título apresenta) cuja definição diz respeito a uma existência ou mescla entre arte e política dentro dos textos de escritores literários. Dito assim, compreende-se que há uma discussão sobre a literatura ser espelho da sociedade (de sua realidade em uma época) ou a sociedade ser espelho da literatura.

Percebe-se, nesse sentido, que a literatura entra em um jogo que constrói a atuação do autor que se demonstra com ator principal deste, embora se afirme que a intenção do autor se diferencia ao longo de sua experiência no campo. A esta experiência pode-se afirmar que a literatura apresenta um espaço de atuação de acordo como o autor percebe e interpreta o mundo à sua volta, pois é necessário entender o tipo de construção política e ideológica presente em seu meio social e, por isso, é importante verificar como a literatura apresenta seus elementos: um autor, um leitor, uma linguagem, uma realidade e um referente. Antoine Compagnon, em seu livro “O Demônio da Teoria”, distingue estes elementos com objetivo de compreender o verdadeiro significado de literatura, asseverando sobre a relação entre literatura e a sua realidade enquanto se discute os tipos de narrativas presentes em obras de ficção. Para a literatura, pode ocorrer o surgimento de um narrador que se demonstre dos mais diferentes modos, e o que se tem visto ao longo dos anos é a diversidade ao se ficcionalizar uma obra. Não é necessária uma participação direta de um autor-personagem em uma obra, como afirma Aristóteles, embora exista uma maneira mista de se apresentar a literatura, quando se misturas no discursos direto e indireto ao dar voz aos personagens como em Ilíada, obra clássica grega escrita por Homero, diferente da tragédia em que apenas há o discurso direto.

Percebe-se a necessidade de se afirmar um discurso acerca dos desdobramentos da narrativa, pois há aí elementos de literatura que referenciam o mundo por meio de mecanismos da linguagem referencial para se referir a mundos ficcionais. Existem diversas abordagens de uma narrativa que se modificou ao longo do tempo devido às diversas experiências estéticas na criação literária. Nota-se aí uma questão de reprodutibilidade de técnica da obra literária que faz correr o risco de a obra perder a sua aura, sua essência. No entanto também há possibilidade de se colaborar com formação de estruturas de acordo com a necessidade da época e da sociedade onde se origina. Para Walter Benjamin, a reprodução de uma obra faz que ela perca sua originalidade, confirmando as novas técnicas utilizadas para se mostrar determinado texto, seja ficcional ou cinematográfico, tendo em vista as diversas transformações sociais imperceptíveis que ocasionam o surgimento de novas mudanças nas formas sociais que contribuem com as novas formas de se fazer cultura.

Observa-se que o escritor de uma obra literária pode se apresentar de diferentes formas: como sujeito livre e como como sujeito dependente da narrativa. É necessário afirmar que o posicionamento do narrador se demonstra como um dos principais elementos de construção da narrativa, pois o modo como se apresenta ao longo de um romance, por exemplo, fornece meios para a interpretação do sentido do texto. Apresenta-se aí uma distância estética entre o real e o literário sempre que são analisados os elementos de um livro, principalmente quando o narrador é examinado, pois é ele quem comanda a história, seu espaço, seu tempo e a descrição. Afirma-se, portanto, que é indispensável discorrer sobre a sua importância no romance contemporâneo, como afirma Theodor Adorno que discorre sobre o conteúdo ideológico em um romance em relação ao caráter ideológico do narrador e do autor, os quais podem se mesclar. Podemos ver essa situação em “A Resistência”, de Julián Fuks, uma obra autoficcionalizada narrada por Sebastián que conta a história de sua vida e de sua relação com seu irmão adotivo após um período em que eles e sua família se mudam da Argentina para o Brasil devido à ditadura no país de origem (o que de fato aconteceu com Fuks em sua vida), e em “Carta ao Pai”, escrita por Franz Kafka, obra que seria literalmente uma carta e após um tempo lançada em livro. O que se observa aí como essas duas obras abordam o narrador sob duas perspectivas (o autoficcional e o autobiográfico), sem perder a autenticidade dos textos literários, a não ser a intencionalidade dos autores se mostra diferente: enquanto Fuks escreve de fato um romance autoficcionalizado, Kafka se vê apenas na escrita de uma carta, cuja formato mudou para o romance, no entanto sem perder sua aura e mantendo sua literariedade.

Ao escrever uma obra, o escritor demonstra a pretensão de terminá-la de modo que demonstre e reflita sobre um conteúdo bem atuante no seu meio literário em sua época. As diversas interpretações sobre o mundo dizem respeito às questões políticas, sociais e ideológicas que determinam o comportamento de seus indivíduos, e pode-se observar que o escritor entra neste jogo entre realidade e literatura com objetivo de representar uma necessidade sua que pode corresponder a uma necessidade de sua sociedade. A relação obra/livro e seu autor permanece tão intensa que não muda ao longo do tempo, mas o que se nota são as diferentes percepções e análises sobre a literatura devido às mudanças nas relações sociais. Em “A Solidão Esscial”, ensaio publicado no livro "Espaço Literário", Maurice Blanchot tenta compreender como o autor consegue se adentar fortemente na construção de sua escrita com o objetivo de verificar como ele escreve e descreve os elementos essenciais da literatura até que afirme sua obra como acabada. Nota-se, no entanto, a diversidade que um romance pode apresentar, tendo em vista que uma obra literária pode apresentar-se também inacabada, uma vez que podem existir outras interpretações que podem ser abordadas no texto, com o qual o autor se encontra totalmente isolado.

As mudanças no modo de pensar e escrever literatura ocorrem de acordo com as transformações sociais, ideológicas e políticas, pois elas obrigam de certa forma ao surgimento de novas manifestações culturais que surgem de acordo com a realidade. Para um escritor estar um passo à frente de sua realidade, como afirma Giorgio Agambem, ele deve dar um passo no escuro para se alcançar a luz no fim do túnel. Por isso, questiona-se muito o que seria contemporâneo que, para Agambem, é ter compromisso com seu lugar e com seu tempo, além de conseguir responder a questionamentos que se encontram sem soluções no seu atual momento. Isto o torna contemporâneo, estar além-fronteiras.

Entende-se que a literatura apresenta diversos valores subjetivos sendo capaz de dialogar sobre diferentes tipos de pensamento do conhecimento humano. Os diversos gêneros literários mostram sob diferentes maneires como fazer literatura, assim nota-se uma interação entre a obra e seu contexto histórico e social. Alfredo Bosi, em seu livro “Entre a Literatura a e a História”, fala como o pensamento e a linguagem interferem diretamente sobre a forma e conteúdo da produção literária, sendo um reflexo da sociedade e uma importante modo de se analisar a sociedade.

Bosi questiona: “a poesia ainda é necessária?”. Pode-se dizer que sim, pois ela mostra as coisas como catarse, purificação da alma, e ainda é uma das formas de representar o mundo. Mesmo com esse tom subjetivo, a poesia se faz como modo de mostrar com firmeza e clareza diversos assuntos sociais, políticos e ideológicos em determinada época. A literatura é subjetiva e objetivo ao mesmo tempo, alcança todo os anseios de quem a faz, em todos seus desdobramentos narrativos e poéticos.
Ricardo Miranda Filho
Enviado por Ricardo Miranda Filho em 28/10/2019
Alterado em 29/10/2019
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