Ricardo Miranda Filho
A poesia é um estado de sentimento único, compreendido através da ação de vivê-la.
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O posicionamento do narrador

Discutir temas acerca da narração e seus desdobramentos nos leva a falar sobre os elementos internos e externos que a elaboram direta ou indiretamente, explícita ou implicitamente. A priori, colocar em um texto algo que nos remete a uma referência sempre será algo presente na literatura, pois a representação do eu - seja qual for o tipo de narrador - e da sociedade sempre ocorrerá nas formas em prosa, haja vista as influências sempre formarem a ideologia de quem a transmite em palavras.
A literatura sempre nos trará condições para discutir sobre ideologia, um tipo de reflexão literária que abordará situações, experiências, movimentos sociais que formarão uma sociedade, o que lhe dará sua forma cultural em sentindo amplo. Vê-se que a literatura é atrelada a todos seus elementos indispensáveis - autor, realidade, linguagem, leitor - que darão aspectos da literariedade à obra produzida. É indispensável discutir como esses elementos são colocados ao longo de uma narrativa em prosa, tentando compreender como ocorre a distância estética entre o real e o literário a fim de analisar a diferença entre o sujeito literário enquanto sujeito livre e enquanto dependente da narrativa.
Ao se verificar o posicionamento do narrador em um romance necessita-se analisar o cunho ideológico da obra, pois, como disse Theodor Adorno, "antes de qualquer mensagem de cunho ideológico já ideológica a pretensão do narrador, como se o curso do mundo ainda fosse essencialmente um processo de individuação, como se o indivíduo, com suas emoções e sentimentos,, ainda fosse capaz de se aproximar da fatalidade". Nota-se aí uma identidade de experiência em relação ao tipo de escrita e à escolha do tipo de narrador. Há a existência, na literatura contemporânea, o embate sobre a autoficção e a autobiografia nas obras em prosa, tendo em vista a crescente necessidade de se falar sobre si mesmo, o que, como afirma Zygmunt Bauman, ocorre porque vivemos em um mundo líquido em tudo é para hoje, para agora, então surge a necessidade de se individualizar todos os nossos desejos e colocá-los à vista de todos.
Colocar em uma obra a nossa existência, as nossas experiências e, consequentemente, nossa identidade contribui com o entendimento não apenas sobre o indivíduo em si, mas sobre seus questionamentos acerca de sua sociedade. Discutir sobre uma sociedade ditatorial, como fez Julián Fuks em "A Resistência", nos auxilia a compreender não apenas o comportamento e os traços da sociedade argentina daquela época, como a ver como se comportava o narrador da obra - o qual atuou como narrador autoficcional, trazendo à tona elementos pessoais e familiares, desde temas políticos até pessoais, como adoção de seu irmão mais novo. Em paralelo a isso, vemos "Carta ao Pai", de Franz Kafka, uma obra que, a priori, era uma carta, mas, devido ao seu enorme valor literário, tornou-se uma obra publica sobre a perspectiva de um romance autobiográfico.
Realiza-se, assim, uma intertextualidade entre realidade e ficção: a literatura fala do mundo e o mundo fala da literatura. Há em jogo aí uma discussão sobre o distanciamento do narrador em relação ao real e ao estético, o que nos permite verificar as enormes possibilidades de se fazer literatura, percebendo, assim, que a existência de elementos sociais e individuais - descritos em uma obra por meio da memória - são colocados na literatura como modo de compreender a autonomia e a forma da obra, assim como o posicionamento do narrador e seu valor para narrativa.
Ricardo Miranda Filho
Enviado por Ricardo Miranda Filho em 11/11/2019
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